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Entrevista
com Da. Maria Antonieta Canello de
Freitas
Da. Maria Antonieta Canello de
Freitas (Da. Marô), proprietária agredida e expulsa da Fazenda Marília --
posteriormente desapropriada -- em Colméia (TO), concedeu entrevista ao
"Informativo Rural", da TFP e à revista "Catolicismo" "A Reforma
Agrária destrói a vida de suas vítimas"
P – Por que a Sra. se
considera uma vítima da Reforma Agrária?
Da. Marô –
Segundo o economista Kenneth W. Sollit, "há certas verdades que serão sempre
verdades, ainda quando se tente negá-las. Na realidade econômica, por exemplo,
não se pode decretar a independência dos pobres simplesmente determinando que os
ricos deixem de sê-lo. Não se pode multiplicar a riqueza, dividindo-a. O governo
não pode dar ao povo nada que não tenha, antes, tirado desse mesmo povo. E tudo
aquilo que um homem recebe, sem trabalhar, um outro homem terá que trabalhar,
sem receber".
Sollit parecia
escrever sobre a Reforma Agrária no Brasil! A "nossa" Reforma Agrária não só
destrói o meio ambiente, mas semeia miséria entre os inocentes-úteis que
acreditam conseguir viver em terra doada, sustentados pelo governo, sem
trabalhar. A Reforma Agrária destrói a vida de suas vítimas. O governo chega ao
cúmulo de formar e financiar cooperativas, propiciando aos "diretores" a ocasião
de explorar seus cooperados.
Tudo isso já é
muito conhecido graças tanto à propaganda que fazem os movimentos que manipulam
os ditos "sem-terra", como pelo inevitável vazamento da conseqüente miséria em
que vivem os assentados, apesar dos subsídios generosos do
INCRA.
Há, porém, um
aspecto muito pouco divulgado: o que acontece com aqueles que são vítimas da
Reforma Agrária. O que acontece com aqueles que são expulsos de suas terras. O
que acontece com a vida de quem perdeu tudo aquilo que conseguiu pelo seu
trabalho.
Poucas pessoas,
felizmente, experimentaram a minha dolorosa situação – ser proprietária e
moradora de uma fazenda invadida por uma horda de "sem-terra". Tratava-se da
Fazenda Marília, localizada no município de Colméia, TO. Lá era a minha casa, a
casa de minha família; lá estavam as minhas flores, minhas árvores, a minha
ampla sala de trabalho, tão despretensiosa que, até hoje, não consigo pensar
nela como "meu estúdio", onde nas horas de folga pintava porcelanas, aquarelas,
desenhava...
P – A partir de
quando a Sra. começou a ter problemas com invasores?
Da. Marô -
Fomos invadidos em 6 de janeiro de 1994 – a primeira fazenda da região a sofrer
violência . Ingenuamente, confiamos na Lei, esperando a desocupação e
reintegração de posse de nossa propriedade. Acreditávamos haver justiça para
proteger as vítimas, não os bandidos. Afinal, pensávamos, se um ladrão entra em
nossa casa, tudo o que precisamos fazer é chamar a polícia. E se for apanhado em
flagrante, o ladrão segue diretamente para a cadeia. Mas se um grupo organizado
de "sem-terra" – uma quadrilha de ladrões, na maioria das vezes – invade sua
fazenda, a lei, curiosamente, concede a essa quadrilha benesses jamais
imaginadas.
P – Por
exemplo...
D. Marô
- Eles são notificados pessoalmente por um oficial de justiça a comparecer
perante o Juiz. Via de regra, apenas um deles se apresenta. O juiz conversa com
ele, avisa-lhe que estão todos intimados a deixar a gleba, e previne-o de que,
se voltarem a invadir, serão considerados infratores e sujeitos a
prisão.
No dia
seguinte, se não for sábado, domingo ou feriado -- pois "sem-terra" não pode ser
"despejado" em dia de descanso --, eles serão retirados da área invadida por uma
força policial. Foi o que aconteceu em nossa fazenda. Os esbulhadores foram
despejados por ordem judicial. Mas já na semana seguinte, à noite, voltaram a
invadir. - Para plantar - Não! Para destruir... Queimaram a ponte que
ligava a região da sede com a área invadida. A Justiça abriu inquérito,
fotografou os escombros da ponte mas, curiosamente, não encontrou
nenhum autor do delito. E não conseguiu investigar, em uma cidade de 5.000
habitantes, quem havia participado da incursão de vandalismo. E nada
aconteceu.
P – Houve
ameaças ou mesmo agressões contra a Sra. ou contra membros de sua
família?
Da. Marô – E
quantas! Tentamos resistir até fevereiro de 1996. Nesse ínterim, meu marido foi
gravemente baleado no rosto por um "sem-terra" escondido atrás de um tapume de
madeira, em plena cidade (foto ilustrando o tapume). Todos conheciam o autor da
tentativa de homicídio. Abriu-se inquérito, mas o culpado continuou foragido e,
mais uma vez, nada aconteceu. Hoje ele circula livremente pela
cidade.
E a destruição
da fazenda continuava. A casa de nosso serrador foi queimada, a serraria foi
semi-destruída para, no mês seguinte, ser inteiramente queimada. Seis empregados
nossos foram feitos reféns, sendo um deles baleado. Novo inquérito, e
ainda mais uma vez nada aconteceu!
A voraz
destruição não parava. As duas casas de alvenaria da área invadida foram
destruídas a marretadas. O curral foi queimado. A mata (atenção, entidades
protetoras do meio ambiente!) ardia em chamas e eu, à distância, sofria com
aquela devastação sem nada poder fazer.
Pedimos ajuda ao
IBAMA, à Justiça e à Polícia. Sem nada conseguirmos, escrevi uma primeira carta
ao Presidente Fernando Henrique Cardoso. Depois de cinco meses, recebi telegrama
dizendo que o assunto havia sido encaminhado ao Ministro da Justiça. Recebi,
dias depois, carta do Secretário do Ministério avisando-nos que o assunto seria
de competência do Secretário da Justiça do Tocantins, e que a matéria já havia
sido enviada a ele. Pela enésima vez, nada aconteceu!
P – Os invasores
agiam espontaneamente ou eram insuflados por alguém?
Da. Marô -
Nesse período, o líder da invasão -- hoje sei que não era um simples trabalhador
rural, e sim um ativista treinado, que fingia nos prestar serviços, mas
seguia instruções dos organismos que o insuflava -- foi assassinado dentro
de nossa propriedade. Tal líder morava na cidade e mantinha um barraco de palha
de babaçu dentro da área invadida.
Foi baleado
pela frente, quando se encontrava em companhia do atual Presidente do Sindicato
dos Trabalhadores Rurais, ferido na ocasião, e declarou à Polícia que, enquanto
caçavam, terem encontrado dois empreiteiros medindo uma cerca na fazenda.
Conversaram com eles e foram tomar um café no barraco. Seguiam em fila indiana,
o líder à frente, o declarante logo atrás, os dois empreiteiros fechando a fila.
Declarou não saber quem os baleou, pois os tiros partiram da mata. Essa versão
foi a mesma que ouvimos dos empreiteiros.
Então, a
Comissão Pastoral da Terra – a já conhecida CPT – ligada à CNBB, apareceu! Pela
primeira vez, uma entidade de renome tomava parte naquela invasão que até então
tentavam fazer parecer fruto espontâneo da natureza. A CPT mandou um
advogado a Colméia, fez pressão na capital do Estado a fim de conseguir um
delegado especial para apurar o caso. A força especial, composta de um delegado
e dois agentes, chegou exatamente nos dias em que estávamos na cidade para os
exames médicos do meu marido que, desde o atentado de morte sofrido, nunca mais
teve a pressão arterial estabilizada e terminou por sofrer um
enfarto.
P – Com a
entrada da CPT em cena, as coisas amainaram?
Da. Marô –
Pelo contrário. Os "experts" fizeram coisas muito "especiais". Prenderam
para investigação três empregados nossos – um vaqueiro, um tratorista e um
mecânico do tipo faz-tudo. Levaram-nos até o rio e os torturaram naquilo que
chamam "banho-de-jacaré", que consiste em manter com a cabeça dentro d`água a
pessoa até o extremo limite de sua resistência, retirando-a, então, para novo
interrogatório...
O delegado
acabou arrancando a "confissão" do mecânico, através de alguns
"banhos-de-jacaré". Mas em seguida, no inquérito judicial, o mesmo negou sua
participação no crime, sendo inocentado em júri popular.
Esse mesmo delegado
chegou a dizer em um bar da cidade que deveria ter levado até o rio, não os
empregados, mas o meu filho, pois do "mocinho eu arrancaria o que
quisesse...". Dessa vez, depreende-se que houve inquérito e que... algo
aconteceu.
P – Que
conseqüências tudo isso trouxe para sua família?
Da. Marô -
Eu, mãe, já vinha recebendo ameaças telefônicas contra a vida do meu filho.
Quando a ameaça partiu da autoridade policial, não resisti: implorei-lhe para
que deixasse a fazenda, e ele, mais do que contrafeito, terminou por
atender-me.
Entendo que para os
instigadores dos "sem-terra" poderia parecer mais fácil ameaçar meu filho-jovem,
agrônomo, que tem por hábito e educação tratar com cortesia a todos os que dele
se acercam. Certamente, confundiam cortesia com
covardia!
O policial,
porém, apresentando o mesmo ponto-de-vista sem sequer conhecer meu filho,
deixava transparecer claramente que mantinha vínculos com pessoas ou entidades
ligadas aos "sem-terra", uma vez que parecia muito bem informado sobre quantos
éramos e como éramos.
O erro dos
informantes foi apoiar-se nas aparências. Consideraram que meu marido --
que diz o que pensa a todos e sobre todos os assuntos, trabalhava como se
tivesse 18 anos e tinha uma aparência de "fortão" -- seria homem "muito
perigoso!" Que eu, sempre em casa, aparecendo em cena apenas nas dificuldades
maiores, seria uma insossa dona-de-casa, e que, portanto, meu filho teria que
ser o alvo mais fácil.
Com o carinho
de mãe, retirei o alvo deles, saí da minha "concha" e passei a enfrentar todos
os assuntos estressantes em que meu marido, enfartado, poderia ser poupado. Para
tal, fui registrando os acontecimentos, datas, medidas tomadas
etc.
P – Com isso
seu filho escapou ileso?
Da. Marô -
Meu filho, afastado do trabalho que adorava, longe das criações a que se
dedicava, sem poder participar do nosso esforço para manter a nossa propriedade,
passou a se sentir inútil, julgando-se culpado por deixar os pais na linha de
frente ao retirar-se do campo das operações. Para ele, uma posição absurda. Tudo
isso o levou a um estado depressivo agudo, tendo que consultar médicos e
psicólogos.
Depressão essa
que ainda não está inteiramente controlada, o que me deixa, como mãe, em
constante estado de tensão. Meu filho... minha vida! Sei que meu filho está
infeliz, que nunca mais conseguiu estar de bem consigo mesmo depois de deixar de
trabalhar na fazenda que era nossa... Fisicamente ele saiu ileso, mas
psicologicamente ficou muito prejudicado. E eu, como mãe, posso estar
bem!
Meu marido
seguia enfrentando todas as dificuldades com uma disposição e ânimo
invejáveis. Quando tive de convencê-lo de que, sem o nosso filho, não fazia
sentido resistir às investidas do INCRA para encontrar e classificar como
improdutiva uma fazenda que, por ocasião da invasão, contava com 5.000
cabeças de gado e dava emprego para 18 a 20 famílias, ele se mostrou reticente,
mesmo incrédulo de que eu estivesse capitulando diante da
luta.
Só depois de
muito esforço consegui aceitasse que aquilo que nos era mais precioso – o
sentimento de tranqüilidade do dever cumprido – já havia sido roubado para
sempre de nossas vidas. E eu, como esposa, poderia estar
bem!?
P – E como
prosseguiram as coisas depois de tantos problemas?
Da. Marô - O
INCRA avaliou a fazenda em fevereiro de 1996, legalmente, acompanhado por
um representante nosso e por um representante dos "sem-terra". Cumpre dizer que
jamais entendi por que a lei exige tal presença. Parece-me como se alguém
tivesse que levar o presenteado sempre que fosse lhe comprar um
presente...
De nossa parte,
continuamos morando lá, é claro, mas esperando a desapropriação para qualquer
momento, e portanto sem nenhuma boa perspectiva para a vida, e sobretudo para a
nossa segurança.
No dia 13 de junho de 1996,
encontrava-me em São Paulo para cuidar de minha neta enquanto minha filha e meu
genro participavam de um Congresso, quando recebi a notícia de que meu
marido estava preso. Ninguém sabia o por quê. Nosso advogado de Colméia dizia-me
apenas que ele havia sido preso na balsa do Rio Tocantins, quando se dirigia a
Palmas. Fui para lá imediatamente. O advogado não conseguiu prisão especial à
qual ele tinha direito, por ser diplomado pela USP, em decorrência de não
existir alojamento no quartel da PM local.
P - Mas neste
caso, seu marido não poderia ficar em prisão
domiciliar
Da. Marô –
Com efeito, seria a alternativa legal, mas a Juíza não concordou. E, por isso,
um engenheiro agrônomo de 64 anos, enfartado, teve que ficar 48 dias em uma cela
que não possuía sequer uma cama ou uma cadeira.
A promotora que
autorizou sua prisão relatou à revista "Exame", em reportagem publicada na
edição no. 669, de 26 de agosto de 1998, que meu marido "José Francisco de
Freitas teve direito a cela com banheiro separado, dentro dos limites de
conforto que uma cidade pequena pode oferecer". (Seu predecessor na dita cela
foi Vicente Rivera, o Vicentico, filho de um dos chefes do narcotráfico
colombiano. Não vou comentar a "honra" de meu marido ter ocupado a mesma cela do
colombiano. Aliás, foi ele quem fez a "decoração" das paredes da cela como
mostra a foto, pois ela fala por si.
O mais
importante é explicar o motivo da prisão. Nosso empregado mecânico – aquele
mesmo que tomou "banho-de-jacaré" -- iria a júri popular, acusado da morte do
sem-terra no dia 10 de julho de 1996. Dias antes, o agente de plantão na cadeia
de Colméia recebeu (sic) um telefonema anônimo de alguém que se dizia muito
amigo da polícia e que avisava que iriam entrar na delegacia e libertar o preso.
Em nenhum momento os nomes do meu marido e do meu filho foram citados, nem pelo
"anônimo" nem na declaração oficial do agente à promotora.
Curiosamente,
tal agente já havia "desaparecido" em 8-6-96, quando tentei contatá-lo. Baseada
nesse "documentário" do telefonema anônimo, em "indícios" de clamor público e
inquietação popular, a promotora requereu e a juíza concedeu mandado de prisão
contra meu marido e meu filho, no dia 7 de junho de 1996. Meu marido esteve na
fazenda durante esse período – dias 7, 8, 9, 10, 11 (dia em que se deu o
julgamento do mecânico) e 12; só saiu da fazenda no dia 13, para ir a Palmas.
Não houve qualquer distúrbio da ordem.
A polícia nunca
procurou pelo meu marido, nem em casa nem nas muitas vezes em que ele foi a
Colméia, e ninguém suspeitou jamais da existência de tal medida! A prisão deu-se
quando meu marido deixava a balsa do Rio Tocantins, portanto fora da jurisdição
de Colméia, sem autorização do Juiz da Comarca de Miracema.
Durante 45 dias
percorri 50 quilômetros, da fazenda até a cadeia, levando roupas, comida,
livros, objetos que pudessem tornar a vida de meu marido mais suportável naquele
cubículo, e , sobretudo, fazendo-lhe companhia. Fazia o mesmo percurso de
regresso, à noite, para lavar roupa, passar, preparar comida (claro que a essa
altura eu não tinha ninguém para ajudar-me, pois quem trabalharia numa fazenda
onde o dono está preso na cadeia) e dormir em total exaustão para recomeçar tudo
no dia seguinte.
P – Mas tudo
isso parece configurar uma enorme tragédia...
Da. Marô –
Não só parece, mas é a realidade. Na Justiça... tudo parado, pois julho é mês de
férias forenses. Só no dia 2 de agosto fomos para uma casa na cidade, que eu
tive que alugar com dinheiro emprestado, fazer a mudança no limite das minhas
forças, porque a juíza só concedia a prisão domiciliar se apresentássemos
prova de residência na cidade. Na mesma reportagem, já citada, da revista
"Exame", a promotora diz: "Não havia como controlar os passos dele (meu marido)
na fazenda". Ridículo total. Por acaso pensaria ela que se quiséssemos "fugir"
de Colméia, à noite, de carro, alguém nos impediria.
A prisão
domiciliar continuou até o dia 2 de outubro de 1996, quando finalmente o
Tribunal de Palmas apreciou o pedido de habeas corpus e revogou o mandado da
juíza.
Enquanto
estávamos em Colméia, correu boato de que a juíza havia "doado" nossa fazenda
aos invasores. Claro que ela não fez isso, nem teria autoridade para tanto, mas
o boato ajudou, e muito, os invasores a nos enxotarem da
fazenda.
Os grupos que
tentavam, esporadicamente, ações de vandalismo na área ainda não invadida (roubo
de implementos, corte de cercas etc), aproveitaram-se do boato para queimar toda
a fazenda (as fotos ilustram o tamanho da destruição). Impediram que os poucos
empregados que nos restavam tratassem dos porcos, ordenhassem as vacas,
cuidassem das reses apascentadas num pasto na frente da fazenda que eu havia
alugado para obter algum dinheiro para sobreviver.
P – Antes de
iniciarmos a entrevista, a Sra. se referiu a um atentado sofrido. Do que se
trata?
Da. Marô -
Quando eu tive de fazer a mudança para Colméia, considerei que "aquela" seria
uma situação provisória e levei apenas o essencial. O forno para queima de
porcelana, por exemplo, ficou na fazenda: ia lá algumas vezes por semana, sempre
durante o dia e, quando tinha peças pintadas, levava-as para fazer a queima. No
dia 17 de setembro de 1996, assim que virei o carro, deixando a estrada de
asfalto em direção à entrada da fazenda, comecei a ser apedrejada por quatro
indivíduos que se encontravam ao lado do mata-burro. Acelerei para passar pela
porteira, que por sinal estava aberta excepcionalmente, tentando chegar logo à
sede da fazenda. Para minha surpresa, a estrada estava bloqueada por pedras. A
roda dianteira do carro quebrou, ficando eu exposta aos apedrejadores. Resolvi
que sairia a pé, correndo até onde pudesse – eu tinha à época 59 anos... pode-se
imaginar o tragicômico da situação! Assim que saí do carro, fui atingida
por uma pedra na cabeça. Caí, rolei pela estrada e, quando consegui me levantar,
os quatro indivíduos corriam, ao longe, fugindo do local, pensando talvez
que eu tivesse morrido.
Caminhei como
pude até o asfalto e pedi socorro, mas ninguém parou. Só ao escurecer consegui
fazer sinais com o farol do carro e o nosso administrador veio em meu socorro.
Na manhã seguinte fui à Delegacia de Polícia, onde foi lavrado o Boletim de
Ocorrência e de corpo delito.
Alguns dias
depois encontrei o delegado e perguntei-lhe se havia identificado os culpados.
Respondeu: "Fui a Goiani e ninguém, lá, diz ter apedrejado a Sra." Nesse
inquérito, mais uma vez, nada aconteceu.
P – Esse
atentado deixou seqüelas?
Da. Marô -
Como conseqüência da queda, passei a ter dores muito fortes na região
sacro-lombar e na perna direita. Com todas as complicações, com marido em prisão
domiciliar, morando em uma cidade que não possui sequer Raio X... tomei centenas
de analgésicos. Após certo tempo, comecei a cair de maneira inexplicável. Caía
sem ter tropeçado ou escorregado em nada.
Por fim, com dores
terríveis, passei 13 dias inteiramente imobilizada num hospital. Os exames
mostraram que fiquei com um fragmento ósseo alojado entre duas vértebras, o que,
por sua vez, provocou dois cistos. A pressão de todos esses "corpos estranhos" é
a causa da dor e da total insensibilidade no meu pé direito e na parte externa
da perna. A cirurgia a que poderia submeter-me é de alto risco, podendo até não
voltar a caminhar.
E assim vou
vivendo, descendo as escadas com o pé esquerdo na frente, sempre com um calçado
leve, sem poder usar sapatos. E não posso mais dirigir, pois não sinto o
acelerador, nem o freio.
P – E como
ficou o Dr. José Francisco, seu esposo, em face de toda essa
perseguição?
Da. Marô -
Quanto ao meu marido... eu esperava alguém em completa depressão, depois de
suportar estoicamente os 48 dias de prisão em condições que as fotos
descrevem mais do que mil palavras. Claro que a prisão domiciliar
constituiu uma "melhora" no processo das injustiças de que ele era vítima (pelo
menos livrava-se do calor da cela, em junho-julho, no Tocantins). Mas não havia
razão para o bom humor que ele demonstrava, quando ainda privado de sua
liberdade e com sua fazenda sofrendo atos diários de
vandalismo.
O que
eu não sabia é que ele já estava sofrendo um terrível processo chamado Síndrome
Bipolar (o que antigamente chamava-se maníaco-depressivo). Enquanto eu me
preparava para conviver com alguém em estado de depressão, para dar-lhe ânimo e
incentivo, ele subia rapidamente os degraus no lado oposto da escala de
comportamento: a euforia. Não acho que nada possa ser mais difícil: a pessoa com
quem eu vivia há 40 anos passou a ter reações completamente imprevistas,
procedia como um estranho.
Quando por fim
consegui levá-lo ao médico, ela já não dormia mais, passava os dias em
movimentação incessante, falava e andava sem parar. Os cacos da nossa vida que
eu tentava juntar ficaram irrecuperáveis – e eu não tinha qualquer possibilidade
de ajudá-lo psicologicamente porque, na mente de um maníaco-depressivo, ele é
que está bem, sente uma perspectiva otimista e correta das situações e o resto
do mundo é composto por pessoas derrotistas!
Hoje, em tratamento
com lithium, ele está bem, embora tenha que ser mantido sob constante controle,
com exames médicos periódicos.
Para complicar a
situação, continuamos tendo que manter advogado acompanhando o morosíssimo
processo de desapropriação pelo INCRA. O dinheiro que recebemos pela
desapropriação de 1/3 de nossas terras consumiu-se com o pagamento de honorários
advocatícios com que tivemos (e ainda temos!) que arcar, com o pagamento de
parte das dívidas contraídas para reter a posse da fazenda, quando de lá já não
conseguíamos tirar qualquer renda , pois o gado vagava solto pela região.
Acrescente a isso as despesas médicas com os problemas de saúde que meu marido e
eu passamos a sofrer como herança da ação dos sem-terra e de seus
ideólogos...
P – Qual o
papel do INCRA em tudo isso?
Da. Marô – O
pior possível! Hoje, esperamos pela desapropriação e pagamento dos 2/3 da
fazenda, totalmente invadidos. O INCRA protela o pagamento alegando que houve
muitas super-avaliações no Tocantins e que todos os processos tiveram que
ser revisados. Não chego a entender como... Quando fomos forçados a sair da
fazenda, um técnico do INCRA, especialista em gerenciamento de conflitos, esteve
lá e dividiu a área – sem pagar, sem ter a posse legal da terra!!! - entre
quatro grupos de invasores que com ele se reuniram na Casa paroquial de Colméia
(uma espécie de filial da CPT. Fato também citado, com a versão do técnico, na
revista "Exame"). Esses grupos, ou venderam os seus "direitos" sobre os
"seus" lotes, ou alugam nossos pastos.
A depredação
das benfeitorias, a destruição de cercas para venda de arame e estacas, a venda
de madeira, são os tipos de "trabalho" realizados pelos que, de alguma forma,
conseguiram ser considerados pelo INCRA como mais aptos do que nós para
serem proprietários de terra. Sim, do que nós, que as compramos e que fomos,
durante 40 anos, fazendeiros e só fazendeiros.
Quando a fazenda
estava sob nossos cuidados, o INCRA vistoriou e encontrou um valor (que não nos
foi comunicado, meses depois é que finalmente vimos as planilhas que os técnicos
haviam elaborado). Ao considerarmos muito baixas certas avaliações, ouvimos dos
técnicos, em Palmas, que tudo tinha sido feito "dentro dos parâmetros do INCRA".
Hoje, depois da permissividade das autoridades diante dos atos de vandalismo ali
praticados, diante da complacência do INCRA -- que até colocou um sem-terra para
viver em nossa casa... --, qual será o valor das benfeitorias, por exemplo.
Quanto vale uma casa com o forro arrancado, sem torneiras, sem eletricidade.
Quanto vale uma cerca queimada, uma porteira quebrada ou um curral
destruído?
O que o INCRA
nos deve, no momento, terá que ser utilizado para quitar nossas dívidas, para
financiar algum empreendimento para o meu filho que está em idade de reconstruir
sua vida, e para permitir que meu marido e eu, que já passamos da idade de
aposentadoria, consigamos ter uma velhice digna.
P – A Sra.
gostaria de acrescentar algo para nossos leitores?
Da. Marô –
Sim, que todos se previnam contra os invasores, contra a ação da CPT e a
respeito das "medidas" tomadas pelo INCRA. Será que esse dinheiro que eu talvez
receba, será suficiente para pagar pela carreira frustrada de um jovem agrônomo,
pelos seus problemas de saúde, por esse hiato de humilhação na vida do meu
filho* Será esse dinheiro suficiente para pagar pela minha limitação física, por
não poder mais dirigir, ou pelas dores constantes na coluna que terei de
suportar ou mitigar com medicamentos cheios de efeitos colaterais desagradáveis.
Ou poderá ele pagar pela condição de cardíaco do meu marido (que nunca fumou nem
bebeu), pelo seu tratamento contínuo, até o fim da vida, do distúrbio bipolar o
qual foi acometido!
E onde fica a humilhação. Quem
responde pelos danos morais que todos nós ainda sofremos e vamos
sofrer.
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